Para Mães e Pais

O recém-nascido, a maternidade e a fórmula infantil

5 de novembro de 2015

Comentei ontem no Facebook que fui visitar uma grande amiga minha na maternidade. Ela acabou de ter sua segunda filha em um renomado hospital de Curitiba. Quando cheguei, ela tinha acabado de amamentar a bebê pela primeira vez e, pouco tempo depois, uma enfermeira veio para orientar sobre o aleitamento. O resumo da conversa: a profissional perguntou se a mãe já tinha dado a chupeta para a filha (incentivando) e disse que passaria à noite para dar complemento para a criança dormir melhor. Detalhe: um bebê saudável, que já estava mamando no seio e com menos de 24 horas de vida.

Quem me segue sabe que, para mim, a decisão da mãe não é da minha conta. Mas é, sim, da conta de todo mundo, que uma maternidade dê fórmula infantil para um recém-nascido dessa maneira! Eu pedi para a nutricionista Paola Bueno Preusse, do blog Maternidade Colorida, me ajudar a explicar por que isso é tão chocante:

O bebê perder peso e mamar pouco na maternidade não são indicações para tomar fórmula
“A gente não precisa ficar desesperado de que o bebê tome algum leite na maternidade”, frisa Paola. Ela explica que o bebê perde peso na maternidade e nos primeiros dias de vida. Isso é normal e não é sinal de falta de saúde. É como se ele “desinchasse” e não significa, necessariamente, que esteja ficando desnutrido ou desidratado.

Além disso, o corpo do bebê está pronto para aguardar até que o leite da mãe desça – o que pode demorar alguns dias. Na maternidade, ele pode simplesmente não ter vontade de mamar (e tudo bem porque ele nasce com uma “reserva energética”). Se mamar, vai tomar o colostro, que é pouquinho mesmo, mas é essencial para o recém-nascido. “É nele que estão os anticorpos fundamentais para o bebê”. E ainda que este colostro pareça que já tenha acabado, quanto mais a criança sugar o seio, mais estimulará o leite a descer.

Se essas não são indicações para tomar fórmula, menos ainda é “para dormir melhor”. Sinto informar, um recém-nascido tem um estômago minúsculo, precisa ser alimentado com frequência, precisa de colo e acalento da mãe mesmo de madrugada e o nosso conforto não pode estar acima de suas necessidades.

As maternidades precisam estar preparadas com banco de leite
Se houver a necessidade real de que o bebê tome um leite que não seja da mãe, as maternidades precisam ter banco de leite, com leite materno adequadamente ordenhado e armazenado, para alimentar os recém-nascidos que precisem. Na maternidade, esses casos reais de necessidade são referentes à prematuridade extrema, hipoglicemia e outros casos bastante específicos de alto risco, que vão ser orientados (ou deveriam ser) pelo pediatra..

A fórmula infantil nunca será como o leite materno e tem alto potencial alergênico
Por mais que as empresas tentem, nunca conseguirão fazer uma fórmula infantil igual ao leite humano. E em sua composição há uma quantidade, ainda que pequena, de leite de vaca. “O leite de vaca é um alimento altamente alergênico e já foi instituído pelos profissionais de saúde que não deve ser dado para as crianças antes de um ano de idade. Quando você dá para o bebê com menos de 24 horas de vida um alimento que ele deveria evitar por mais de 12 meses, isso pode desencadear um processo alérgico na criança ou, ao menos, torná-la mais propensa a ter alergias no futuro”, explica Paola.

Ou seja, mesmo que seja um pouquinho na maternidade, o consumo de fórmula infantil aumenta as chances de a criança ter alergias alimentares no futuro. É por isso que a maternidade precisa estar preparada para oferecer leite materno em caso de necessidade real e não complemento industrializado.

“Mas meu leite é fraco, não está sustentando o bebê”
Não, não existe leite materno fraco. A nutricionista explica que o que existe é um bebê que não está se alimentando direito do leite da mãe, às vezes porque a pega está errada ou porque ele não está mamando todo o leite que ele precisa. “O primeiro momento da mamada, o leite vem com mais água – a parte que hidrata – e, depois de algum tempo, vem a parte de gordura do leite, que faz com o bebê ganhe o peso e se satisfaça.” Por isso, é importante aprender sobre livre demanda, pega correta, tempo de mamada e, principalmente, ter o contato de uma consultora de amamentação ou do banco de leite para você buscar ajuda assim que as dificuldades aparecerem (o que vai surgir no início).

Um ponto importante é não se desesperar com o tempo que a criança demora para recuperar o peso perdido na maternidade. É muito comum, na primeira consulta, com 10 dias de vida, o pediatra dizer que a criança não recuperou o peso e por isso dar a fórmula. Observe com cautela esse fato e indicação. Uma enfermeira conhecida me explicou que o bebê em aleitamento materno pode demorar até um mês para recuperar o peso sem prejuízos para sua saúde. Ou seja, as 48 horas que o bebê está na maternidade não são suficiente para avaliar a necessidade de complemento com base no ganho ou perda de peso.

“Meu médico disse para eu dar fórmula”
Segundo a Paola, existem sim casos em que a fórmula é necessária. Na maternidade, são raríssimos e relacionados a doenças graves, como câncer, tuberculose e AIDS. Nos casos gerais, essa indicação é algo que deve ser feito em consultório levando todo o histórico do bebê, incluindo na conversa um nutricionista e um pediatra de confiança (mesmo!). “Amamentação não é nada fácil. Por isso, esses profissionais devem dar o máximo de informação e estímulo para o aleitamento materno”, ressalta.

E qual o problema da chupeta?
Gente, quem conhece o blog sabe que eu não sou contra chupeta. Pelo contrário. Não vou entrar em detalhes aqui e nem criticar a escolha dos pais (novamente, não é da minha conta!), mas o que eu quero apontar é a conduta do profissional de saúde. Já se sabe que bicos artificiais – chupetas e mamadeiras – prejudicam a amamentação, confundem a criança. Imagina para um recém-nascido que ainda está aprendendo a mamar no seio. O profissional de saúde não deveria estimular o uso, muito menos antes de o bebê estar mamando adequadamente. Para a Paola, o uso é totalmente contra-indicado: “tive uma amiga que amamentou exclusivamente os gêmeos por seis meses, quando introduziu água em copo com bico de silicone, eles mudaram a pega e o seio começou a machucar”, conta.  Vejam: depois de seis meses de amamentação exclusiva!

Solução: busque informação ainda antes de engravidar e garanta direitos seus e do seu filho
Saiba quais são seus direitos, o que é normal e o que não é em relação à amamentação, o que esperar dos primeiros dias do bebê e do aleitamento materno, enfim, vá atrás de todas as informações necessárias para que, nas palavras da Paola, “não caia no conto do vigário ainda na maternidade”.

Uma coisa muito, muito importante que eu não fiz por falta de informação e te incentivo: garanta o seu direito de amamentar na primeira hora de vida do bebê, preferencialmente, logo após o parto. Segundo a minha amiga Denny Seratto, que é enfermeira especializada em pediatria e UTI neonatal, a amamentação na primeira hora estimula precocemente a contração uterina, aquece o bebê e ajuda na sua adaptação ao ambiente novo, ajuda o organismo da mãe a liberar endorfinas e, principalmente, estimula as mamas a produzirem mais rapidamente o leite.

Como uma mãe que amamentou muito pouco, eu incentivo você a fazer diferente de mim. Inclusive, aqui no blog tem dois posts sobre isso: 7 conselhos de uma mãe que amamentou pouco e Eu poderia ter amamentado mais. Será?. E um outro post muito bacana para te ajudar: O que você precisa saber para ter sucesso na amamentação.

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Comentários

  1. Adriana disse:

    Eu amei esta matéria , tirou minhas dúvidas em relação aos procedimentos adotados na maternidade….sou estagiária do último ano de Enfermagem e estava estranhando certas condutas em hospital maternidade…..mas no meu caso sou estagiária e não posso questionar…sou mãe e não tive dificuldades de amamentar… foi exaustivo as vezes, mas o amor compensa tudo…. muito obrigada.

    1. Melina disse:

      Que bom que gostou!! Imagino que seja duro ver coisas que não são as melhores e não poder fazer nada :(

      1. Adriana disse:

        É muito difícil ver as coisas e ficar calada ..eu presenciei enfermeira chefe do setor indicando o uso de chupeta pro recem nascido, deram leite atificial com mamadeira em bico de borracha esquentaram a mamadeira no microondas, e falavam que o bebê não sabia sugar e a mãe não tinha leite ou queriam descansar a mãe a noite complementando a criança, meu TCC é sobre aleitamento materno e fiquei chocada com esta realidade… :(

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Quem sou

Sou Melina Pockrandt Robaina, filha de Deus, jornalista e mãe da Manuela (6 anos) e da Ana Júlia (1 ano)

Eu sou Melina, mas pode me chamar de Mel. Moro em Curitiba (PR), sou jornalista, empresária e mãe de duas meninas maravilhosas: Manuela, 8 anos, e Ana Júlia, 3 anos. Um dos meus maiores alvos é tornar a vida mais simples e leve todos os dias.

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