Para Mães e Pais depoimento adoção

{Depoimento} Dia Nacional da Adoção: A chegada da Lelê

25 de maio de 2015

A Patrícia foi a jornalista que me substituiu durante a minha mini licença-maternidade. Entre muitas conversas, contei que tinha um blog e que comecei com o objetivo de desmistificar essa aura perfeita que a maternidade tem. Todo mundo fica cansado, quer gritar, quer fugir quando o filho está chorando, mas ninguém admite. E ela comentou que com a adoção é parecido. As pessoas acham que tudo é um mar de rosas e muitos não tem coragem de falar a verdade. Por isso, neste 25 de maio – Dia Nacional da Adoção -, convidei a Pati para contar um pouco da sua história com a Leticia. E é linda demais, gente!

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“Sempre que me perguntam quando pensei em adotar uma criança, nunca consigo responder direito… é que, na verdade, não sei dizer quando NÃO pensei sobre isso. Desde que me conheço por gente, sabia que iria adotar. Já adolescente, tinha o projeto de vida pronto: um marido que eu amaria mais que tudo, um filho do coração e um filho biológico. A torcida então começou a ser para dar a sorte de encontrar este futuro marido que topasse a adoção. E sempre foi muito claro: se não topasse, não seria o futuro marido.

Os anos foram passando, passando e eu não tive a sorte de encontrar este homem que eu amaria mais que tudo. E não foi nem mesmo pelo fato de não haver uma aceitação sobre a adoção, não encontrei o amor mesmo (e ele também não me encontrou rs).

Bom, já com 38 anos, pensei: preciso agora colocar em prática o projeto maternidade aos 40 anos. Sim, sempre quis ser mãe aos 40! Como não existia um parceiro e produção independente está completamente fora dos meus planos (não cogito a ideia de trazer uma criança para este mundo, que não seja fruto de um amor) parti para a gestação do meu filho do coração.

Para a família, que já sabia da minha vontade, não houve surpresa. E, junto com o apoio, vieram também os alertas sobre a dificuldade que eu teria em assumir uma responsabilidade tão grande sozinha. Com os amigos, compartilhei com os mais próximos, mas confesso que sentia que muitos achavam ‘papo de mulher que está ficando solteirona e está procurando algo para se distrair’.

Como sempre li sobre o assunto, sabia que o primeiro contato era pela Vara da Infância. Um telefonema e recebi a informação de que toda quinta-feira tem uma palestra informativa sobre a documentação necessária para a entrada na fila da adoção.

Saio mais cedo do trabalho e vou até a reunião com praticamente uns 20 casais. Não estava constrangida nem preocupada pelo fato de ser a única a estar sozinha, pois já conhecia outros casos de mulheres solteiras que tinham adotado e sabia que existia a possibilidade.

Após a palestra e as informações recebidas, uma certeza: o caminho seria longo. São pedidos vários exames, documentos, questionários a serem preenchidos, palestras obrigatórias a serem assistidas, entrevistas com psicólogas da Vara etc.  E, tudo isso, ainda não significaria que eu já estaria na fila. É preciso primeiro passar por tudo e somente depois você entra oficialmente na fila.

Todo este processo descrito acima durou praticamente 6 meses (me empenhei bastante para não perder tempo). Ao preencher o questionário sobre as características da criança que eu receberia como filho (a) só fiz a ressalva de que gostaria que tivesse entre 0 e 3 anos e, de preferência, que não fosse portador de Síndrome de Down. Por preconceito? Não. Por insegurança de não poder dar toda a atenção necessária,  pois trabalho o dia todo. No mais, que meu filho venha como Deus achar que deve vir, igualzinho como se tivesse gerado em minha barriga!

As psicólogas da Vara foram taxativas: crianças de 0 a 3 anos demoram uns 5 anos para virem. Ok, queria muito curtir a fase de um bebê e não queria ir contra este meu desejo. Em junho de 2011, eu estava oficialmente na fila da adoção.

Durante seis meses cheguei a ligar umas três vezes para a Vara para ver se tinham alguma novidade. E a resposta era sempre a mesma: ‘Patricia, você não quer mudar a idade da criança para mais de cinco anos?’ e eu: ‘Não’.  ‘Então, continuamos dizendo que vai demorar’.

Como sou extremamente ansiosa, depois da terceira ligação prometi que não ligaria mais e deixaria nas mãos de Deus… De qualquer forma, na reforma do meu apartamento montei um quarto todo branco que poderia virar um quarto de hóspedes, caso o meu filho não chegasse.

No dia 24 de abril de 2012, às 15h, toca meu celular e eu atendo no trabalho:

– Oi Patricia, é Vera, da Vara da Infância, tudo bem? Você pode falar?
– Sim.
– Você ainda está interessada na adoção?
– Sim (coração agora começando a ficar descompassado)
– Então, nós temos aqui uma menina chamada Letícia, de 1 ano e 3 meses, quem tem problema de audição, usa aparelho, e nós gostaríamos de saber se você tem interesse na adoção.

Até hoje acho essa frase engraçada. Será que tem alguém que está na fila da adoção e diz: ‘não, não tenho’?

Bom, não conseguirei explicar aqui o que senti. Estou escrevendo agora e estou chorando. Comecei a chorar a partir do momento que ela disse ‘então…’

Os sentimentos são muitos e vieram todos ao mesmo tempo: emoção, alívio, felicidade, curiosidade, medo do desconhecido (aqui, no caso, do grau da dificuldade auditiva que ela portava).

Desliguei o telefone e o meu choro (nada discreto, pois não sou uma pessoa discreta) já havia chamado a atenção de todos que me incentivaram na hora para eu ir direto para a Vara conhecer o processo da minha filha.

Peguei um táxi (pois meu carro havia sido roubado uns meses antes), fui buscar minha mãe (é lógico) e fomos juntas para a Vara conhecer a história da Lelê. Foram 2 horas lendo todo o processo e vendo apenas uma fotinho do aniversário dela de 1 ano, completado no abrigo.

Ao terminar a leitura e as explicações não via a hora de conhecê-la, mas já eram 19h e as crianças no abrigo já estavam dormindo. Restava então ir no dia seguinte, às 6h da manhã (pois as crianças levantavam às 5h30).

Às 6h, eu e mamãe (novamente é claro, minha parceirona) estávamos lá esperando, na salinha da entrada do abrigo, que a irmã trouxesse minha filha. Quando ela entrou na sala, de mãos dadas com a irmã, fiquei impressionada com o tamanho dela para 1 ano e 3 meses. Ela era muito grande! Também fiquei impressionada com o tamanho do aparelho nos dois ouvidos. Eram muito grandes também. Achei a Lelê muito triste, quietinha, ressabiada, e muito observadora.

Foram estes os meus sentimentos e faço questão de ressaltá-los aqui! Pois sinto que as pessoas fantasiam demais este momento de ir conhecer o filho adotivo e se frustram se não tiverem ouvido uma música de fundo, se não tiverem achado – como muitos livros dizem – que a criança é o filho de outra reencarnação, que não é parecido com algum parente ou com tudo o que viu nos seus sonhos, etc. Tem pessoas que por não vivenciarem este ‘momento mágico’, em que deveria nascer instantaneamente o amor, voltam depois para a Vara dizendo que ‘não bateu’.

Não quero criticar, não estou aqui para isso, mas acho engraçado as pessoas acharem que o amor vai nascer ali, no momento que ela olha para a criança. Pode haver sim uma empatia muito grande, uma afinidade instantânea, ou até aquele amor à primeira vista que na verdade é um encantamento fortíssimo. Mas amor de verdade, isso só vem com o tempo, ele é construído.

Depois de 5 dias indo visitar a Lê no abrigo toda a manhã (antes de ir para o trabalho pois tinha que deixar tudo em ordem antes de me afastar para a licença-maternidade) fui buscá-la para levá-la para casa, onde ela está até hoje, com 4 anos e 4 meses.

Não sei quantificar hoje o tamanho do meu amor pela Lelê. Também não sei dizer como seria minha vida sem ela. Tive muitos momentos difíceis (que podem ser comentados em outro texto, caso queiram mais detalhes), mas adotá-la foi a melhor coisa que fiz na vida e, de verdade, se tivesse mais condições financeira, iria para o segundo.”

 

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Quem sou

Sou Melina Pockrandt Robaina, filha de Deus, jornalista e mãe da Manuela (6 anos) e da Ana Júlia (1 ano)

Eu sou Melina, mas pode me chamar de Mel. Amo escrever, amo meu marido, amo minhas três filhas e, acima de tudo, amo Jesus. Moramos na Pensilvânia, nos EUA, e, sempre que consigo, gosto de falar sobre minhas experiências, aprendizados e desafios seja na maternidade, na vida cristã ou como imigrante.

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