Lá em Casa contra o aborto

Por que sou contra o aborto e não odeio você que é a favor

12 de fevereiro de 2015

Lá no Instagram está rolando um desafio para as mulheres postarem uma foto da gravidez em uma campanha contra o aborto. Postei minha fotinho lá, mas acho que é importante discutir sobre este tema de maneira mais ampla e aberta. Eu sou absolutamente contra o aborto e acho muito pouco provável que eu vá mudar de ideia um dia. Mas acho que toda opinião tem que ser fundamentada em argumentos. Se ainda não estão totalmente construídos (o que é comum), que então se busque sempre os motivos para acreditar em algo, pois só assim podemos defender aquilo que temos como verdade. Assim, eu falo abaixo por que eu sou contra a legalização do aborto:

Eu acho que toda pessoa tem direito à vida e, para mim, a vida nasce a partir do momento da fecundação óvulo-espermatozoide, ainda que seja muito “impalpável”. Na minha primeira ecografia, com seis semanas de gestação, já pude ouvir o coração da Manuela. Será que havia vida ali? Por isso, por mais que isso seja polêmico, eu acredito que realizar um aborto é acabar com uma vida.

E, considerando que o embrião já é um bebê em potencial, eu sempre penso: nós podíamos ter evitado, ele não pediu para estar nesta situação. Não se esqueçam que muito cedo o feto já pode ouvir sons, sentir gostos, criar memórias. Como podemos garantir que ele não “sente” o aborto?

Acho que hoje há inúmeras maneiras de evitar uma gravidez. As informações são amplamente divulgadas e métodos anticoncepcionais são distribuídos gratuitamente pelo governo. Acho sim que é necessário continuar este trabalho, dando mais educação e voltando os olhos da população para os altos índices de gravidez na adolescência e entre a população menos favorecida financeiramente.

Aliás, ao contrário do que muitos dizem, não acho que a legalização do aborto beneficiaria as classes mais baixas e que essas seriam as que mais sofrem atualmente com o aborto clandestino. Essas classes podem ser as que mais têm gestações indesejadas, mas estimular que o aborto seja realizado não é o caminho. Educação e assistência social são a priori a melhor forma de diminuir este cenário. Pessoas de baixa renda que se submetem a abortos clandestinos continuariam realizando em lugares com pouca assistência, pois muito duvido que o SUS daria conta de atender a toda a demanda.

Por outro lado, as classes mais favorecidas, que realizam abortos clandestinamente nos dias atuais com mais segurança, não deixariam de fazê-lo. Vejo, infelizmente, que até estimularia a prática como se fosses uma “pílula do dia seguinte”. Eu mesma já ouvi uma pessoa com uma condição financeira melhor – e, teoricamente, mais esclarecida – falando: “se engravidar, a gente tira, né?”.

Concordo que mesmo usando métodos contraceptivos os riscos existem e que um bebê pode sofrer muito se não for desejado por uma família, mas hoje em dia há maneiras de dar essa criança assim que ela nascer , sem necessitar de burocracia, no total anonimato, e tendo toda assistência médica necessária. Há tantas famílias que dariam tudo para ter um bebê e não podem. Se esta criança não for desejada pelos pais naturais, com certeza, haverá para ela outros pais de braços abertos para recebê-la.

Sim, eu sei que a pessoa teria que passar nove meses grávida e “sofrer” todas as partes ruins relacionadas à gestação. Imagino que, sim, dar um bebê depois de 9 meses deixe uma marca emocional e física na mulher. Mas o aborto também deixa marcas no corpo e na alma de quem o faz. E sinceramente, não consigo digerir este argumento de que a mulher tem que ser dona de seu próprio corpo e decidir sobre ele porque, a partir do momento que o feto está ali, ele é um “corpo estranho”, na minha opinião, ele não é propriedade da mulher.

Sei que muitas podem pensar que então estão fadadas a correrem o risco de engravidar sem poder fazer nada. De fato, para algumas isso pode ser uma bênção. Para outras, uma maldição. Mas o fato é que somos mulheres e somos assim e não vejo que isso nos dê o direito de tirar uma vida, principalmente quando temos tantas oportunidades e maneiras de evitar esta situação.

Concordo que, para o homem, é muito mais fácil se livrar de um filho não desejado. Mas não se preocupem, pois, um dia, eles terão que prestar contas sobre o que fizeram e o que não fizeram, pois nada fica escondido na eternidade. E, sim, infelizmente fica a cargo da mulher tomar esta decisão. Mas a boa notícia é que somos tudo, menos sexo frágil, e damos conta de fazer sozinhas o que for necessário, inclusive criar uma família.

Mas eu não te odeio se você fez um aborto ou se é a favor dele. Por mais que minha primeira filha não tenha sido planejada, eu não tenho nem como imaginar o que é carregar um bebê que está fadado a morrer depois do nascimento por conta de alguma doença ou que é fruto de um estupro (e outras situações previstas em lei). Também não consigo imaginar a angústia que uma mulher sente ao engravidar sem querer a ponto de se submeter a uma intervenção de risco para o tirar o bebê. Imagino que deve ser algo que realmente aflige a alma. Por isso, eu não te julgo se você fez um aborto. Pois cada um conhece as suas próprias dificuldades.

Assim, se você não fez, mas faria e é a favor da legalização do aborto, isso também não impede o nosso relacionamento. Acima de tudo, precisamos aprender a viver tolerância em um mundo e multiplicidade de opiniões. Isso é algo que procuro ensinar para minhas filhas: não é porque alguém pensa, acredita ou age diferente de você que é preciso partir para cima com pedras na mão. Respeito é fundamental sempre.

Queria terminar este texto fazendo um comentário – quase um apelo: não é por que um bebê não foi planejado que ele não pode ser desejado. A minha mãe foi bem estimulada – para não dizer quase forçada – a fazer um aborto quando estava grávida da minha irmã mais velha. Ela não fez. E hoje fico pensando o que seria de nossas vidas se ela não existisse. O que seria de mim, se minhas filhas não existissem? O que seria de você se algum amigo seu não existisse?

Ainda que você, numa gravidez indesejada, só consiga pensar nos problemas que este bebê pode trazer, uma coisa eu te garanto: se você abrir seu coração, ele vai transformar a sua vida para melhor! Como disse a Sica, no depoimento sobre “gravidez não planejada”, a gente pode não ter escolhido ser mãe, mas nossos bebês nos escolheram para ser. Dê uma chance a ele : )

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Comentários

  1. cah disse:

    Gostei do seu texto, sobre o respeito e tudo o que relatou. Mas não posso deixar de falar mesmo quando você diz que esta respeitando a opinião de quem é a favor, você de forma sutil ainda tenta convencer o leitor a mudar de opinião. Não encare como uma critica negativa por favor. Só me atentei a isso no texto, achei engraçado a situação. Nos mesmo quando respeitamos a opinião diferente, tentamos argumentar pra convencer o outro mesmo que inconsciente. Bom aproveitando sou a favor do aborto. Não, eu nunca fiz e não pretendo fazer. Sim, eu tenho uma filha. Sempre quis ser mãe. Sou a favor pelo simples fato de eu sou responsável pelo o meu corpo. Não estou na pele das outras mulheres que querem por seu inúmeros motivos. Respeito elas e luto para que elas possam ser donas do próprio corpo. Assim como sou do meu. Legalizar não é incentivar.

    Bom é minha opinião.
    Bjos
    Adoro o blog
    Viva a discussão saudável ;)

    1. Maternidade Simples disse:

      Oi, querida. Obrigada pelo comentário e pelo elogio. Na verdade, nem precisava ser sutil. Eu respeito mesmo a opinião alheia, mas é claro que eu gostaria que todos tivessem a minha opinião, rs. Assim como quem é favor, gostaria que outras pessoas fossem a favor e lutassem pela mesma causa. O ser humano é assim, né? E não acho que seja errado, pois se – de fato -acreditamos em algo, queremos compartilhar. Só precisamos nos atentar para este limite do respeito e da tolerância sempre!
      Beijo grande!! :)

  2. disse:

    Parabéns pelo seu texto, Melina! Traduziu em palavras o que sinto no meu coração!

    1. Maternidade Simples disse:

      Obrigada!! :)

  3. Marianna disse:

    Eu queria ter escrito este texto!! TODOS os meus argumentos, que cansei de postar em comentários sobre o tema, englobavam mais totalmente essa visão. Parabéns!!

    1. Maternidade Simples disse:

      Obrigada, Marianna!! :)

  4. Luciana | luliluli BLOG disse:

    Mel só consegui vir aqui hoje ler seu texto sobre o aborto – uma amiga falou do seu blog num grupo do whats e lembrei. adorei. Você é minha alma gêmea da internet hahahahaha aliás, lindo blog! Super bem feito! Parabéns!

    1. Maternidade Simples disse:

      Hahahahaha, também mega me identifico com seus textos!! Sério. Mas realmente nessa vida, às vezes, a gente não consegue acompanhar todos os blogs que a gente quer, rs. Obrigada pelo elogio, Lu!! :)

  5. Priscila disse:

    Amei amei amei o texto. Só fiquei com uma dúvida: vc disse que hj em dia, caso a pessoa queira entregar a criança para adoção é possível sem necessitar de burocracia e no maior anonimato. Pelo que sempre ouvi é super difícil entregar pra adoção, vão fazer mil e uma investigações, ver com todos os familiares se não querem mesmo ficar com a criança. Me explique por favor? Obrigada

  6. Maria disse:

    Boa tarde, querida!
    Amei seu texto, e tb concordo que existem pessoas com outra opinião em relação ao aborto, mas é uma pena que sejam a favor, até pq só estão aqui nessa terra pq sua querida mãe não a tirou fazendo o aborto, se ela pensasse como salvando vidas, não estariam aqui nesse mundo maravilhoso cheio de adversidades, dificuldades e felicidade. Concordo que existam mil razões para uma mãe tirar a vida de seu filho, mas se temermos a Deus saberemos que é sim toda vida uma dádiva Dele. Escolher entre um filho e outro seria acreditar que exista um melhor que o outro. Queria contar minha história para que quem sabe uma mãe que esteja nesse momento pensando em tirar seu filho repense que seu filho irá de apenas um sangue tornará um ser de luz lindo crescendo dentro do seu ventre e será muito grato um dia a vc por tê-lo dado a chance de conhecer esse mundo.
    Já tinha um filho de 4 anos, e um casamento dificil de brigas e violência, situação financeira ruim, e uma fase onde todo mundo dizia que as crianças viriam com microcefalia, o governo estava querendo aprovar que as mães que fizessem o aborto estariam legalizadas pois seriam crianças totalmente com problemas e nenhuma mãe por mais que aceite não deseja isso para um filho, então todas as pessoas diziam para tirar, amigos, familia, comprei remédios para tirar, paguei uma enfermeira que faz isso e quando chegou a hora, depois de tudo pronto, desisti, não tive forças para fazer aquilo, chorei dias e dias por pensar em fazer imagine se tivesse feito. Passei o momento mais dificil da minha vida, e hoje estou com a minha pequena já com um ano de idade e posso te dizer é a coisa mais linda, amável dócil que eu vi na minha vida. Minha razão de viver meus filhos, sou hoje mais forte do que antes depois dos meus filhos, eles são a força que tenho para seguir e não desistir dos meus sonhos. Como dizer que não são bençãos divina.

  7. charles alves ramos disse:

    Charles Alves Ramos Acho que a mulher deveria ter direito de ate pelo menos tipo uns 06 anos de idade decidir se quer continuar com o filho o não, afinal não é porque a criança nasceu que ela é apta, e além mais ela é que pôs no mundo, então ela decide se quer que viva o morra, somente mesmo numa sociedade tão machista e patriarcal se obriga uma mulher a ter um filho que ela não quer. Vocês concordam? ou não? Reflita com calma mulheres, seu corpo suas regras, tudo bem que tem material genético de um homem, mas isso não quer dizer nada, e a mulher que gere. O homem é só um reprodutor, não deve ser levado em consideração o que ele pensa, e não se sensibilize pelo fato de á criança já ter nascido, não muda nada quase nada, somente que o que está no seu corpo não fala e não chora, mas tem crianças já nascidas que pouco falam ou choram, bom o que está no corpo e menorzinho também, mas é como muitas mulheres dizem né, meu corpo! minhas regras!

  8. Isabelle fernanda disse:

    Oi, Maria! Eu gostaria muito de conversar com você sobre sua história! Me passa algum contato seu?

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Quem sou

Sou Melina Pockrandt Robaina, filha de Deus, jornalista e mãe da Manuela (6 anos) e da Ana Júlia (1 ano)

Eu sou Melina, mas pode me chamar de Mel. Amo escrever, amo meu marido, amo minhas três filhas e, acima de tudo, amo Jesus. Moramos na Pensilvânia, nos EUA, e, sempre que consigo, gosto de falar sobre minhas experiências, aprendizados e desafios seja na maternidade, na vida cristã ou como imigrante.

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