Para Mães e Pais tongue tie bebê língua presa

Língua presa, hipotonia em bebê e frenectomia

21 de fevereiro de 2023

Já contei para você em detalhes sobre como a Abigail não sustentava a cabeça e o neuropediatra disse que ela era hipotônica aos dois meses de idade. Foi internada, fez vários exames e contei sobre tudo isso no post: Hipotonia em bebês: meu bebê não sustenta a cabeça.

Nesse post, eu quero dar detalhes acerca da língua presa posterior e da frenectomia (procedimento para “cortar” o freio da língua) que fizemos – e como a Abigail se desenvolveu depois do procedimento. Quem quiser um resumo, mas ao mesmo tempo com detalhes, tem um vídeo lá no final.

Contei brevemente no outro textos sobre duas pessoas que falaram sobre a questão da língua presa enquanto estávamos no processo de fazer exames na Abigail e investigar a sua aparente hipotonia.

Uma delas foi a enfermeira que nos levou para o eletroencefalograma. Ela comentou que uma amiga tinha um bebê com quase um ano de idade com muitos atrasos motores. Após fazer a frenectomia, a criança desenvolveu rapidamente todos os marcos esperados para a idade.

Mas, além dela, eu tive uma grande amiga que já tinha me falado um pouco sobre o tema anos antes. Quando o seu filho precisou fazer a frenectomia (uns 4, 5 anos antes da Abigail nascer), ela contou sobre o tema para mim, exatamente sugerindo como assunto para o blog, uma vez que é pouco conhecido e discutido no Brasil.

Como assim pouco conhecido? A gente não está falando só de língua presa, mas sobre o posterior tongue tie.

Língua presa posterior ou posterior tongue tie

Para vocês entenderem, a Abigail passou no teste da linguinha na maternidade e, na primeira consulta com a pediatra, eu pedi para ela checar novamente. E ela disse que estava tudo bem.

O posterior tongue tie é um freio que prende a língua lá atrás, no fundo e nem sempre é visível e fácil de diagnosticar para quem não tem experiência.

A minha amiga me contou que o filho dela tinha várias limitações de movimento, dificuldade com o tummy time (ficar de barriga para baixo), chorava horrores para ficar na cadeirinha do carro, mas, principalmente, não conseguia mamar direito. Além disso, ele tinha tido os espasmos parecidos com o da Abigail.

Aqui nos Estados Unidos é muito comum a mãe procurar consultora de amamentação e, geralmente, são elas as primeiras a notar algo errado na língua. A suspeita é encaminhada para o dentista que confirma o diagnóstico e faz o release (o corte) – na tesoura mesmo ou a laser.

A frenectomia da Abigail

Assim que cheguei nos EUA, já comecei a pesquisar mais sobre isso. Não tinha ido ao pediatra e também não amamentava mais, então, não adiantava buscar uma consultora. Então, fui direto a especialistas.

Mas primeiro entrei num grupo de mães no Facebook que compartilhavam experiências e, cada vez que eu lia os relatos, ia ficando cada vez mais convicta de que era o caso da Abigail. A cereja do bolo foi quando uma mãe compartilhou uma foto da sua bebê fazendo tummy time com a cara no chão e, depois, a criança sustentando a cabeça. Era um “antes e depois da frenectomia”. Eu “vi” a Abigail nesta foto!

No próprio grupo, achei uma especialista numa cidade perto de mim. A dra. Cockley, do East Berlin Smiles, um centro referência em frenectomia a laser na minha região.

Liguei lá e me explicaram que eu faria a avaliação e, se quisesse, já poderia fazer a frenectomia no mesmo dia. Eu confesso que fiquei com um pé atrás porque já tinha pesquisado e ouvido que para fazer o release de um posterior tongue tie é importante fazer um body work antes.

O que é o body work? Pode ser quiropraxia, terapia corporal ou craniosacral. O objetivo é que seja possível chegar mais “fundo” possível até o freio e liberar efetivamente, sem deixar resquícios que podem ser prejudiciais.

Mesmo reticente, fui. A Abigail que estava comigo há quase dois meses dentro do hotel dia e noite sem ver ninguém fez um escândalo quando a dentista veio avaliá-la. Ela olhou bem rapidamente e, junto com a anamnese, disse que havia grandes chances de haver um tongue tie, mas que ela não iria fazer o release naquele dia devido ao nervosismo da Abigail. Sugeriu, primeiro, duas sessões de body work com uma profissional da clínica; uma naquele dia mesmo e uma na semana seguinte antes da frenectomia.

Foi ótimo porque era exatamente o que eu queria. E com uma sessão de body work, a Abigail já manifestou algumas melhoras. Na semana seguinte, ela já estava um pouco mais calma e a dentista conseguiu avaliá-la melhor, diagnosticou o posterior tongue tie e fez a frenectomia a laser. Eles enrolam a criança tipo num charutinho e demora segundos, é muito rápido.

Após a frenectomia

Depois do procedimento, a dentista orientou que eu poderia dar para a dor arnica ou tylenol. Eu sou alopática e fui pro Tylenol mesmo. Uma outra sugestão que vi no grupo das mães era congelar “gotas” de leite materno ou fórmula para aliviar localmente.

A pior parte são os stretches. É um “alongamento” que a gente faz para que a cicatrização seja feita de forma que o novo freio, que vai se formar, seja adequado e não mais restritivo. Então, a gente literalmente põe o dedo na ferida várias vezes por dia. É sofrido, mas faz parte. A gente tem que fazer e é rápido, na verdade.

Aqui, nos primeiros dois ou três dias foi pior, mas depois logo melhorou. A dentista orienta como fazer, quantos stretches devem ser feitos e até quando. 

Salto no desenvolvimento motor após a frenectomia

O que mais me surpreendeu foi o resultado visível na Abigail após a frenectomia. Logo no mesmo dia, saindo do consultório, ela já parecia fisicamente diferente. Parecia que tinha alguma coisa a amarrando por dentro e agora ela estava solta.

Nos 5 dias que se seguiram, ela passou a fazer várias coisas que não fazia até então. Estava com 4 meses e duas semanas e finalmente começou a rolar nos dois sentidos, esticar os braços para alcançar os brinquedos, pegar objetos e levar à boca, colocar o pé na boca, fazer barulhos e brincar com a língua. Foi impressionante.

Não há literatura científica (pelo menos não achei) e consenso médico na ligação entre língua presa e atraso no desenvolvimento motor. Porém, eu vi essa correlação com a minha filha e li vários relatos lá no grupo sugerindo o mesmo. Tem que ser MUITA coincidência. 

Inclusive, por não haver muita evidência, os pediatras (nem aqui nos EUA, que parece que o tema é mais disseminado) levam muito a sério o assunto. Muitas e muitas mães relatam que os pediatras desencorajaram a frenectomia ou que era coisa da cabeça delas. Por isso, tem um grande número de mães que fazem o procedimento sem nem consultar o pediatra antes. 

Como eu ainda não tinha ido à primeira consulta com o pediatra aqui nos EUA, eu fiz sem falar com ninguém mesmo.

Aliás, se você conhecer alguém no Brasil que já fale sobre o tema, deixe nos comentários que pode ajudar alguém.

Lip tie – o freio no lábio

Além do freio de língua, existe o freio de lábio, que é bem comum para quem tem tongue tie. Na consulta com a dentista, a dr. Cockley disse que a Abigail tinha freio do lábio, mas não estava prejudicando a movimentação do lábio, por isso sugeriu não fazer o release.

Porém, quando ela estava com uns 9 meses, eu notei que os dentes superiores da frente estavam ficando muito separados – o que pode ser causado pelo lip tie. Então, voltei lá no consultório.

A dra. Cockley avaliou e disse que sim, era melhor fazer o release. Na verdade, os dentes do bebê nascem separados mesmo, é comum e desejável. Porém, não tanto como estavam o da Abigail. A foto abaixo está ruim, mas foi o que deu para registrar, rs. Além da separação, dá pra ver uma protuberância que era bem rígida no meio dos dentes.

lip tie freio do lábio
Dentes com 9 meses

A frenectomia do lábio também durou segundos e a recuperação foi ainda melhor do que com o tongue tie. Hoje, a Abigail está com mais de 1 ano e os dentinhos da frente estão super bem posicionados.

Sintomas do freio da língua/ tongue tie

Eu vou traduzir aqui alguns dos sintomas que a dra Cockley compartilha como sendo comuns em caso de língua presa/ tongue tie:

Sintomas do bebê

  •  dificuldade de pegar o seio para mamar e manter a pega
  • barulhos frequentes de “clique” enquanto mama
  • bebê fica exausto e dorme antes de ficar satisfeito
  • tosse ou engasgo com o leite frequente
  • solta o seio para respirar
  • solta com frequência a pega
  • fica insatisfeito mesmo depois de longos períodos mamando
  • pouco ganho de peso ou perda de peso
  • gás, refluxo, cólica ou soluços por engolir muito ar
  • períodos prolongados de amamentação
  • choro e frustração aparente durante a amamentação
  • leite saindo do canto da boca durante a amamentação
  • mastigando o mamilo

Já a mãe pode sentir:

  • dor intensa ao amamentar
  • não consegue esvaziar completamente a mama
  • não produz leite suficiente ou produz em excesso (mais do que o bebê consome)
  • mastite
  • mamilos rachados ou feridos com frequência

Conclusão

Como eu já contei no outro post, a Abigail melhorou da “hipotonia” num conjunto de coisas porque além da língua presa, ela também tem hipermobilidade, que é assunto do post hipermobilidade e atraso no desenvolvimento motor do bebê. 

Mas resolvi trazer esse assunto detalhado aqui porque muita coisa eu jamais tinha ouvido falar e foram cruciais para nós. Espero que ajude.

Para quem gosta de vídeo, eu falo sobre isso nos vídeos abaixo. Tem vídeo da época da frenectomia e também depois de alguns meses.

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Comentários

  1. Tânia Cabral Araujo disse:

    Aqui no Brasil temos a fisioterapeuta maravilhosa Ligia Conte, q defende a relação freio alterado X atraso motor c unhas e dentes. O insta dela é @desenvolvecrianca riquíssimo de conteúdo sobre desenvolvimento infantil, freios alterados, entre outros temas poucos abordados e conhecidos. Vale a visita por lá!

    1. Melina disse:

      Que ótimo saber! Vou conhecer para poder indicar :) Obrigada!

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Quem sou

Sou Melina Pockrandt Robaina, filha de Deus, jornalista e mãe da Manuela (6 anos) e da Ana Júlia (1 ano)

Eu sou Melina, mas pode me chamar de Mel. Amo escrever, amo meu marido, amo minhas três filhas e, acima de tudo, amo Jesus. Moramos na Pensilvânia, nos EUA, e, sempre que consigo, gosto de falar sobre minhas experiências, aprendizados e desafios seja na maternidade, na vida cristã ou como imigrante.

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